Amélie e o eixo de Peixes & Virgem
- Helu
- 24 de fev. de 2017
- 6 min de leitura

Piscianos e virginianos. Popularmente os dois são vistos como extremos irreconciliáveis: um sonhador, o outro prático; a vítima viciada e o médico workholic. Essa leitura radical e estereotipada parece esquecer que os dois signos compõem o mesmo eixo: o do servir. A mesma energia está presente nos dois, mas cada um a elabora de uma maneira diferente para servir ao mundo. Para falar um pouquinho mais sobre isso, escolhi o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulin.

Mas, Helu, a Amélie não é pisciana ou virginiana. Talvez seja geminiana pelas datas faladas no filme, como você pode escolher a personagem para falar sobre esse eixo? Ora, essa postagem não é sobre o comportamento de um personagem com o signo solar tal, é sobre como podemos ver os extremos (os desafios!) e equilíbrio do eixo Virgem & Peixes. Todos temos esse eixo no mapa astral e, como todos os outros eixos, é bom prestarmos atenção para ver se não focamos muito em um extremo e esquecemos do outro.
O Peixe no aquário

O fabuloso destino de Amélie Poulin é um filme francês que conta as peculiaridades da personagem de mesmo nome. Logo na primeira narrativa do filme, nos deparamos com a contagem de tempo e espaço detalhadissimo da criação (fecundação) da personagem.
“Em 3 de setembro de 1973, às 18h28min32s, uma mosca califorídea, capaz de 14.670 batidas de asa por minuto pousou na Rua Saint Vicent, em Montmartre.”
A narração acelerada, mas cheia de detalhes, é um recurso constante no filme, intercalada a cenas lúdicas e personagens excêntricos que compõe o universo da personagem. E é justamente nesse contraste entre detalhismo paranoico e lúdico excêntrico que vemos os extremos do eixo Virgem e Peixes.
O regente de Virgem e Gêmeos, Mercúrio, representa, dentre outras coisas, nossa comunicação e nossa capacidade lógica tanto de aprendizado quanto de seletividade; enquanto Gêmeos leva a fama de ser mais voltado para a comunicação e aprendizado, Virgem aparenta mais a parte “cri-cri” desse simbolismo: é o grande analítico, perfeccionista, classificador. E é justamente esse último verbo que podemos notar constantemente no filme: Amélie (e o narrador onisciente) não apenas detalha minuciosamente certas cenas e pensamentos, mas também classifica constantemente as pessoas ao seu redor descrevendo suas manias, doenças e crises. É engraçado como essas descrições não tem um julgamento crítico, as informações são faladas como se representassem uma ficha que a personagem tem de cada um de seu convívio. Ao acompanhar a história da personagem, podemos ver que esse recurso está muito relacionado a sua dificuldade em interagir, de fato, com essas pessoas.

O modo como observa as outras pessoas lembra muito como o pai demonstrava seu amor quando ela criança: o único momento que ela sentia esse afeto era nos exames de rotina que ele administrava. Seu olhar de médico, racional, lógico, julgava a saúde de seu coração pelas aceleradas repentinas, sem nunca questionar se aquele sintoma estava relacionado com o simples prazer da menina por finalmente sentir seu afeto físico. Vemos, assim, a personagem encontrar refúgio no mundo que inventou aos 6 anos. Os pais, convencidos que ela tinha uma doença grave, passam a ensiná-la somente em casa e esse isolamento piora após a morte da mãe. O Pai, nunca afetuoso, se isola cada vez mais e Amélie passa a sonhar até ter idade de partir. Contudo, sem perceber, ela acaba levando esse isolamento por onde passa. É como um peixe dentro do aquário observando o mundo distorcido através do vidro.
A conversa entre a personagem e seu vizinho pintor representa bem esse distanciamento que ela leva.

Pintor - Depois de tantos anos, o único personagem que ainda não consegui captar é a moça com o copo de água. Ela está no centro e, no entanto, está fora.
Amélie - Talvez seja diferente dos outros.
(P) - Em quê?
(A) - Não sei”
(P) - Quando era pequena, não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca.
O isolamento, seja ele físico ou mental, lembra muito as características piscianas. Relacionamos um dos regentes desse signo, Netuno, à fantasia, à inspiração, e esses recursos servem para entendermos – e colaboramos - melhor com o mundo: ao imaginar, conseguimos nos colocar no lugar de outra pessoa; ou vemos possibilidades simbólicas para uma outra solução que não é possível através da lógica palpável. Porém constantemente essa energia pisciana/netuniana pode causar comodismo, podemos ficar escravos das ilusões e nos recusarmos a vivenciar o que a realidade nos permite fazer para mudar uma certa situação. Essa ilusão também é vista no outro extremo do eixo, comumente vemos fobias relacionadas à Virgem por excesso de perfeccionismo. Essas características podem parecer muito diferentes nos atos extremos, mas, na verdade, fazem parte do excesso de dedicação e preocupação desse eixo. A servidão acontece através da empatia, mas a pisciana pode levá-lo a criar esse outro mundo (isolado ou de vítima) por não conseguir praticá-la na realidade, já no caso do simbolismo virginiano a empatia se manifesta pela preocupação em ser melhor para ajudar. O desequilíbrio do eixo pode influenciar o virgem a focar na crítica excessiva quando classifica as pessoas ou a si mesmo, ou pode fazer o pisciano a paralisar ao perceber que sua grande meta não acontecerá exatamente do jeitinho que se iludiu.
O salto suicida
“É 29 de Agosto. Em 48 horas, o destino de Amélie Poulain mudará.”
Enquanto vemos vários personagens envolvidos no assunto da mídia (morte de uma celebridade), a personagem ignora o fato e passa a traçar seu destino ao achar uma caixa escondida em seu banheiro. Achar o dono da caixa é uma mescla da curiosidade mercuriana com a benevolência de Netuno. Através dessa experiência a personagem entra em contato com a vizinhança em busca de informação, e acaba se vendo obrigada a romper seu isolamento e ouvir as histórias alheias de cada um que compõem seu universo real. Quando finalmente entrega a caixa ao dono, o faz de maneira anônima e a satisfação vem puramente ao observá-lo feliz com o achado.
“Amélie, de repente, se sente em harmonia com ela mesma. Tudo é perfeito nesse momento. A suavidade da luz, o perfume no ar, o rumor tranquilo da cidade. Ela respira fundo. A vida lhe parece tão simples, que um elã de amor como o desejo de ajudar toda a humanidade a toma de repente.”
E assim, ela se sente motivada a fazer outras benevolências, mas vai ao fundo do poço ao perceber que não pode salvar a humanidade. Em uma cena na TV, vemos várias atitudes benevolentes envolvendo a personagem se doando, mas ela chora ao “assistir” sua própria ilusão.
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“Luta perdida de antemão, que consumiu prematuramente sua vida. Com apenas 28 anos, Amélie Poulain, extenuada, deixou sua vida se esvair no redemoinho do sofrimento universal. Esperava-a o remorso lancinante de ter deixado seu pai morrer sem nunca ter tentado dar a esse homem asfixiado o sopro de ar que conseguira insuflarem tantos outros"
Sim, vemos aqui muito da dor pisciana de doação máxima, mas frustração por saber a dificuldade de realizar tais façanhas. A “paralisia” que pode nos atingir com essa aflição não dura muito na personagem. De maneira travessa, mercuriana, jupiteriana, como uma criança, ela começa a colocar em prática esse plano: faz o duende do pai viajar o mundo para incentivá-lo a fazer o mesmo, provoca a aproximação amorosa de dois conhecidos, invade a casa do vizinho para pregar-lhe uma lição etc.. Sua observação a ajuda a perceber as necessidades alheias e mistura sua criatividade e lógica para resolvê-las.

É cumprindo esse desejo de ajudar outra pessoa que surge o interesse em se aproximar amorosamente de um rapaz. Até mesmo nessa interatividade ela continua moldando a situação com criatividade e lógica para se sentir segura, até que, aos pouquinhos, deixa-se apaixonar e perceber que outras pessoas também podem cuidar dela.

Sair desse isolamento do alto ideal (perfeito – seja pelo lúdico, seja pelo detalhismo) e entrar em contato com as necessidades alheias é um equilíbrio muito interessante desse eixo Virgem & Peixes. De que adianta tanta observação e capacidade analítica se não nos dispusermos a participar dessa interatividade e fazer parte da cena pintada também? É aos poucos, medindo o terreno onde pisa, que a personagem ousa interagir até se sentir confortável para uma entrega. Amélie não está mais trancada no aquário, ela salta para a realidade e se permite entrar em águas fluídas e pertencer ao todo.


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